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Traição

A gente conta pros filhos que houve traição?

Karinne Bruno, psicóloga de casais Karinne Bruno · CRP 20983/11
Psicóloga clínica e psicanalista · 12 de setembro de 2026 · 6 min de leitura
Sala de estar com brinquedos guardados e luz suave de fim de tarde

Quase sempre a pergunta chega assim: "eles são pequenos, não entendem nada, né?". Entendem. Não entendem o quê — entendem que alguma coisa está errada. E é essa diferença que decide o que dizer.

Eles já sabem que tem alguma coisa

Criança lê clima antes de ler conteúdo. Percebe porta fechada, conversa que para quando ela entra, tom de voz diferente, alguém dormindo em outro cômodo. O que ela não tem é explicação — e criança sem explicação inventa uma. A versão que ela inventa costuma ter ela mesma como causa: "brigaram por minha causa", "se eu me comportar, melhora".

Por isso o silêncio total não protege. O que protege é dar uma explicação verdadeira, no tamanho certo.

A regra que vale para toda idade

Três frases resolvem a maior parte dos casos, e servem dos 4 aos 17 anos, mudando só as palavras:

  • "Está acontecendo um problema entre a gente." Nomear tira a criança da adivinhação.
  • "É assunto de adulto, e nós estamos cuidando disso." Devolve a responsabilidade a quem é dela.
  • "Não é por sua causa, e você continua com os dois." Responde a pergunta que ela não faz em voz alta.

Repare que nenhuma delas exige contar o que aconteceu. O conteúdo da vida sexual dos pais não é informação de criança — e, na esmagadora maioria das vezes, também não é de adolescente.

O que dizer, por faixa de idade

Até 6 anos

Frases curtas, concretas, focadas na rotina: quem busca na escola, onde cada um dorme, o que continua igual. Nessa idade previsibilidade acalma mais que explicação.

7 a 11 anos

Já pergunta e já compara com histórias de colegas. Pode-se dizer que os pais estão numa fase difícil e que estão sendo ajudados por uma profissional. Saber que existe alguém cuidando alivia — a criança para de sentir que precisa consertar.

12 a 17 anos

Costuma perceber mais do que os pais imaginam, e às vezes já sabe. Aqui o risco não é o excesso de informação: é virar confidente. Adolescente que recebe detalhes vira juiz, escolhe lado e carrega uma dívida que não é dele. Reconheça o que ele viu, valide o incômodo, e mantenha a fronteira: o assunto dos adultos se resolve entre os adultos.

O que nunca dizer

  • Detalhe da traição. Nem para o mais velho, nem "porque ele já é grande".
  • Nada que force escolha de lado. "Pergunta pro seu pai o que ele fez" transforma a criança em mensageira de um conflito adulto.
  • "Está tudo bem", quando a casa inteira sente que não está. Isso ensina a criança a desconfiar da própria percepção — e o efeito disso aparece anos depois, nos relacionamentos dela.
  • Promessa que você não controla. "A gente nunca vai se separar" pode virar mais uma quebra de confiança.

Quando um quer contar e o outro não

É uma das brigas mais comuns dessa fase, e quase nunca é sobre a criança. Quem quer contar frequentemente busca reconhecimento público do que sofreu; quem não quer, às vezes, busca preservar a própria imagem. Vale nomear isso entre os dois antes de decidir — com o filho fora da conversa.

Um combinado que costuma funcionar: os dois definem juntos uma versão, curta e verdadeira, e os dois sustentam a mesma. Versões diferentes obrigam a criança a decidir em quem acreditar, e é esse o dano que dura.

O que muda com a terapia de casal

Em sessão, essa conversa é preparada antes de acontecer: o que será dito, por quem, com que palavras e em que momento — inclusive quando o caminho é a separação. Isso evita que a criança receba a notícia no meio de uma briga, que é como acontece quando ninguém planeja. Trabalho parecido com o descrito na página de terapia de casal depois da traição, onde os filhos aparecem em 6 de cada 10 casais que chegam.

Perguntas frequentes

Devo contar para os meus filhos que houve traição?

Na maioria dos casos, não — o conteúdo da vida sexual dos pais não é informação de criança nem de adolescente. Mas isso não significa negar o que está acontecendo. Eles precisam saber que existe um problema entre os adultos, que os adultos estão cuidando disso, e que não é culpa deles.

E se eles já ouviram alguma coisa?

Aí é preciso falar, porque o que não é nomeado a criança preenche com a própria imaginação — quase sempre com uma versão em que ela é culpada. Confirme o que ela ouviu em termos simples, sem detalhe, e diga quem está cuidando do quê.

Adolescente é diferente de criança pequena?

É. Adolescente costuma perceber mais, cobrar posição e às vezes já saber. Com ele o risco não é o excesso de informação e sim virar confidente ou juiz de um dos pais. Pode-se reconhecer o que ele viu sem transformá-lo em aliado contra o outro.

Não contar é mentir para eles?

Não. Existe diferença entre mentir e não expor. Mentir é dizer que está tudo bem quando a casa inteira sente que não está. Não expor é preservar a criança do conteúdo adulto, dizendo a verdade no nível que ela consegue carregar.

E se o outro contou por conta própria, em versão distorcida?

Evite disputa de versão na frente da criança — ela não tem como julgar e vai se sentir obrigada a escolher lado. Reconheça que ela ouviu aquilo, diga que os adultos estão resolvendo entre eles e reafirme o que importa: ela não é responsável e continua com os dois.

Karinne Bruno, psicóloga de casais
Karinne Bruno é psicóloga clínica e psicanalista, registro CRP 20983/11, com prática dedicada a terapia de casal e foco em crise conjugal: traição, distanciamento, brigas repetidas e a decisão entre reconstruir ou separar. Mais de 2.000 casais atendidos em mais de 14 países. Atende online, por videochamada, para todo o Brasil e para brasileiros no exterior. Nota 5,0 no Google, com 104 avaliações. Ver formação e credenciais.

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Referências

  1. Baucom, D. H., Snyder, D. K. & Gordon, K. C. (2009). Helping Couples Get Past the Affair: A Clinician's Guide. Guilford Press.
  2. Gottman, J. M. & Silver, N. (1999). Os Sete Princípios do Casamento. Objetiva.
  3. Johnson, S. M. (2008). Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love. Little, Brown.
  4. Conselho Federal de Psicologia (2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP nº 010/2005.

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