KB Karinne BrunoTerapia de casal

InícioBlog › Traição

Traição

Recebi o pedido de desculpas e continuo magoado. E agora?

Karinne Bruno, psicóloga de casais Karinne Bruno · CRP 20983/11
Psicóloga clínica e psicanalista · 9 de setembro de 2026 · 6 min de leitura
Duas mãos próximas sobre uma mesa de madeira, sem se tocar

Pediram desculpa. Você aceitou. Talvez tenha até dito que estava tudo bem. E, semanas depois, a mágoa continua exatamente onde estava — só que agora com um agravante: você não sente mais direito de falar dela.

Esse é um dos pontos em que mais casal trava. Não porque falte amor, e sim porque desculpa e reparação foram confundidas.

Desculpa não é reparação

A desculpa é um evento: acontece num dia, dura alguns minutos, e encerra o assunto para quem pede. A reparação é um processo: acontece ao longo de meses, em comportamento, e é o que devolve segurança para quem foi magoado.

Quando existe só a primeira, o resultado é previsível. Quem pediu desculpa considera o caso encerrado e passa a estranhar que o outro "ainda" esteja assim. Quem foi magoado sente que a dor virou defeito de caráter. Os dois estão de boa-fé, e mesmo assim o clima piora.

Por que perdoar cedo demais trava tudo

Muita gente perdoa rápido por três motivos: para parar de sofrer, para não perder a relação, ou porque foi ensinada que guardar mágoa é feio. O problema é que o perdão precoce não elimina a mágoa — ele a esconde, e tira do casal a chance de trabalhar o que a causou.

Meses depois aparece a briga desproporcional por um assunto qualquer, e ninguém entende de onde veio. Veio dali. O perdão dado antes da hora não é generosidade: é adiamento com juros.

A anatomia de um pedido que funciona

Um pedido de desculpas que repara, na prática, tem quatro partes — e quase todos os que não funcionam falham em uma delas:

  • Nomear o que fez, sem eufemismo e sem "se eu te magoei". Foi magoado, não "se".
  • Reconhecer o efeito: o que aquilo produziu no outro, dito com as palavras do outro, não com as suas.
  • Não anexar defesa. "Me desculpa, mas você também" apaga tudo o que veio antes da vírgula.
  • Dizer o que muda, em comportamento verificável — não em intenção.

Falta uma dessas quatro e o pedido soa como pedido de encerramento, não de reparação.

Quando o assunto vira proibido

Existe um momento em que o casal faz um acordo silencioso: não se fala mais nisso. Ninguém combinou em voz alta, mas os dois sabem. Tocar no tema passa a ser visto como provocação, recaída ou má vontade.

A partir daí a mágoa não some — ela muda de endereço. Vira ironia, vira porta batida, vira briga por conta bancária e horário de chegada. Casal que chega assim costuma dizer que "briga por besteira". Não briga: briga pelo que não pode ser dito.

O que fazer com a mágoa que sobrou

Três movimentos ajudam mais que qualquer conselho genérico:

Separar mágoa de cobrança. Dizer "isso ainda dói" é diferente de "você nunca muda". A primeira abre conversa; a segunda fecha, porque exige defesa.

Pedir reparação específica. Vago não repara. "Quero que você me avise quando for sair" é acionável. "Quero que você me respeite" não é — não porque seja injusto, mas porque ninguém sabe o que fazer com isso na terça-feira.

Dar prazo ao processo, não à dor. Combinar de conversar sobre o assunto uma vez por semana, com hora marcada, alivia mais do que parece: quem foi magoado para de precisar espremer tudo em qualquer brecha, e quem magoou para de sentir que o tema pode explodir a qualquer hora.

O que muda com a terapia de casal

Quando o assunto já virou proibido em casa, o casal sozinho tem só duas saídas: brigar ou engolir. A terapia devolve a terceira. Na prática, o trabalho é transformar mágoa em pedido concreto, mostrar a quem magoou o que a reparação exige de fato, e sustentar o tema em aberto pelo tempo necessário sem que cada conversa vire julgamento. É parte do processo descrito na página de terapia de casal depois da traição — e vale também quando a mágoa não veio de traição, mas de tudo o que foi engolido antes dela.

Perguntas frequentes

Por que continuo magoado mesmo depois do pedido de desculpas?

Porque desculpa e reparação são coisas diferentes. A desculpa encerra o assunto para quem pede; a reparação é o que se faz depois, ao longo de meses, para que o outro volte a se sentir seguro. Quando só houve a primeira, a mágoa fica — e costuma ser lida como má vontade de quem foi magoado.

Quanto tempo é normal levar para perdoar?

Não existe prazo, mas existe direção. O que indica que o processo anda não é a mágoa sumir, e sim ela aparecer com menos frequência e ocupar menos espaço quando aparece. Se depois de meses a intensidade é a mesma, em geral falta reparação, não tempo.

Perdoar significa esquecer?

Não. Esquecer não é possível e nem seria bom — a memória é o que protege. Perdoar, na prática, é a lembrança deixar de organizar o dia: você lembra, e a lembrança não decide mais como você trata a pessoa naquela tarde.

E se eu perdoei e a pessoa acha que já era pra estar tudo bem?

Esse é um dos pontos mais comuns de travamento. Quem magoou tende a marcar o fim do episódio no dia do pedido; quem foi magoado marca no dia em que voltar a se sentir seguro. As duas datas são diferentes, e essa diferença precisa ser dita em voz alta, não adivinhada.

Vale a pena fazer terapia só por causa disso?

Vale quando o assunto virou proibido em casa — quando trazer o tema já é tratado como recaída ou provocação. Aí o casal precisa de um terceiro lugar para falar, porque sozinho ele só tem duas opções: brigar ou engolir.

Karinne Bruno, psicóloga de casais
Karinne Bruno é psicóloga clínica e psicanalista, registro CRP 20983/11, com prática dedicada a terapia de casal e foco em crise conjugal: traição, distanciamento, brigas repetidas e a decisão entre reconstruir ou separar. Mais de 2.000 casais atendidos em mais de 14 países. Atende online, por videochamada, para todo o Brasil e para brasileiros no exterior. Nota 5,0 no Google, com 104 avaliações. Ver formação e credenciais.

Leia também

Referências

  1. Baucom, D. H., Snyder, D. K. & Gordon, K. C. (2009). Helping Couples Get Past the Affair: A Clinician's Guide. Guilford Press.
  2. Gottman, J. M. & Silver, N. (1999). Os Sete Princípios do Casamento. Objetiva.
  3. Johnson, S. M. (2008). Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love. Little, Brown.
  4. Conselho Federal de Psicologia (2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP nº 010/2005.

Agende agora

Quer conversar com a Karinne?

Uma primeira conversa para entender onde a relação de vocês está — e o que é possível a partir daqui.

Falar no WhatsApp

Sem compromisso. Sem formulário.

Falar no WhatsApp